Num
domingo do mês de abril, quando estava em Codisburgo, na casa de um
grande amigo, fui ao museu de Guimarães Rosa, acompanhava o Rodolfo
e a Ruth, sendo que o primeiro fora até este para pegar sua bolsa,
e assim, retornarmos à Belo Horizonte.
Na
porta do museu, que é assentado na casa onde o escritor quando
menino morou, postei-me a observar sua estrutura física de uma
época já antiga, e que remetia aos olhos os tempos de meus avôs e
das “molecagens” de Guimarães.
As
portas e janelas de madeira, as hastes na parede que traziam luz, o
conjunto em si embelezavam a mente na percepção da beldade vetusta,
isso, me deixou com um ar de inveja, por só agora ter estado
ali.
Já no
interior, aproveitei para vasculhar um pouco sobre a vida do autor.
Contemplei fotografias antigas na parede, em seu quarto, a cadeira
de balanço que embalava sua imaginação, a cama onde muitos sonhos
repousaram e na mesinha que avistei ao lado, as gravatas que o
engomavam, no outro canto, o armário onde seus ternos
descansavam.
Mas
coleando pelos cômodos, cheguei até uma salinha onde havia uma
mesa, toda de madeira, grande e de extrema lindeza, na parede só
pude observar um quadro que expunha o certificado da Academia de
Letras do escritor, e a data a qual este virou
“imortal”, 16 de novembro (lembro-me bem desta pelo
fato de se tratar do meu dia de anos). No mais, nada prendia meus
olhos, pois o ar de mistério daquela escrivaninha planava por
quatro paredes, e vestígios de ocultação me chamavam à
atenção.
Pus-me a rodear aquela mesa, objeto que pertencia a sua
biblioteca de seu apartamento no Rio de Janeiro, quando de repente
bafejam em meus ouvidos: Foi em cima desta mesa que o encontraram
morto! E mais tarde,
já em Belo Horizonte, vim a descobrir que ele foi encontrado
debruçado e já falecido pela neta, no dia 19 de novembro de 1967 na
“cidade maravilhosa”, morte que adveio de um malfeitor
anti-literário, o infarto.
Quando fiquei a sós no recinto, e de olhos presos em
indagações de tudo que se passara naquela mesa e cadeira, notei que
lágrimas escorriam da madeira, mas não eram lágrimas de tristeza
pela morte do poeta, mas de saudade dos velhos tempos em que ela e
o escritor eram grandes amigos, dos tempos em que os estros de Rosa
eram em sua companhia transcritos, dos tempos que servia de
aconchego para embalar devaneios. O poeta havia lhe abandonado,
estava ali deixada às traças, e nem um outro, ousou até então, lhe
dizer um poema, lhe contar uma estória, para acalentar seu pobre
coração que aparava-se em desespero e
agonia.
De
olhos tomados pela emoção, sentia que era meu dever, não podia
deixar uma agonia perdurar por mais de 42 anos, então, fui à busca
nos bolsos de minha calça de um poema, era impreterível, e na minha
mão, meu poema - Guimarães Rosa vive em odoríferas rosas - surgiu,
e foi quando comecei a recitar que a grande Rosa, de minha boca,
baforejava aquele aroma pelo cômodo e partículas de sua essência
poética apascentava-se na superfície da vetusta madeira, e no
reencontro com o poeta, enfim poderia viver em
delírio.
Retornei para Belo Horizonte com um ar de tranqüilidade,
pois o abandono, feito pela maldade do humano, havia sido suprido,
não por mim, mas pela poesia que tinha a grande Rosa, pois nela,
tinha um pouco de Guimarães Rosa.
Comentários